• Posted by : Thiago Leão Acordado BLOG segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015


    O HOMEM E SEU CAMINHO

    O Homem beirou-se do Sábio e perguntou-lhe: - Como encontrarei a Luz no Caminho da minha Vida?
    O Sábio respondeu-lhe: - No Caminho da tua Vida encontrarás três Portais. Lê as regras escritas em cada um deles e cumpre-as. E agora vai! Segue o teu Caminho! O Homem seguiu o seu Caminho. Em breve deparou com um Portal onde estava escrito: MUDA O MUNDO
    O Homem pensou que, na verdade, se havia algumas coisas no Mundo que lhe agradavam, havia muitas outras que eram objeto do seu desagrado. E começou a sua primeira luta: os seus ideais, o seu ardor e o seu poder levaram-no a confrontar-se com o Mundo, para corrigir, para conquistar, para mudar a realidade de acordo com os seus desejos. Nisso encontrou o prazer e a volúpia do conquistador, mas não trouxe Paz ao seu coração. Conseguiu mudar algumas coisas, mas muitas outras resistiram aos seus propósitos.
    O Sábio perguntou-lhe então: - Que aprendeste no teu Caminho?
    O Homem respondeu: - Aprendi a distinguir entre o que está ao meu alcance e o que se lhe escapa, o que depende e o que não depende de mim.
    O Sábio retorquiu: - Isso é bom. Usa as tuas capacidades para agires no que estiver ao teu alcance e esquece o que estiver para além delas, mas se te negares ao amor, tendes a retornar ao primeiro caminho, pois só o amor abre passagem aos demais.

    II
    Pouco depois, o Homem encontrou o segundo Portal. Nele estava escrito: MUDA OS OUTROS
    O Homem pensou que, realmente, os outros tanto podiam ser fonte de alegria, de prazer ou de satisfação, como de dor, amargura ou frustração e rebelou-se contra tudo o que lhe pudesse desagradar nos outros. Tentou moldar as suas personalidades e corrigir os seus defeitos. Esta foi a sua segunda luta. Fê-lo com persistência, mas nunca conseguiu remover as suas dúvidas sobre a real eficácia dos seus esforços de mudar os outros. O Sábio perguntou-lhe então: - Que aprendeste no teu Caminho?
    O Homem respondeu: - Aprendi que os outros não são a causa nem a fonte das minhas alegrias ou das minhas tristezas, da minha satisfação ou dos meus desastres. São apenas oportunidades para todos se me revelarem. É em mim que tudo tem raízes. O Sábio retorquiu: - Tens razão. Os outros revelam-se na medida do que acordam em ti. Agradece aos que fazem vibrar em ti as cordas da Alegria e da Satisfação. Mas não odeies os que te causam sofrimento ou frustração, porque, através deles, a Vida ensina-te o que te falta aprender e qual o Caminho que ainda te falta percorrer. Nunca te esqueças... amar é aceitar o outro da forma como ele se nos apresenta.

    III
    Então o Homem encontrou o terceiro Portal, onde se lia: MUDA-TE A TI PRÓPRIO
    O Homem pensou que, se na realidade era ele próprio a fonte dos seus problemas, então era em si próprio que teria de trabalhar. Começou então a sua terceira luta. Tentou moldar o seu caráter, lutar contra as suas imperfeições, acabar com os seus defeitos, mudar tudo o que lhe desagradava em si próprio, tudo o que não correspondia ao seu ideal. Teve algum sucesso, mas também alguns fracassos e duvidou das suas reais capacidades. O Sábio perguntou-lhe então: - Que aprendeste no teu Caminho?
    O Homem respondeu: - Aprendi que há em mim aspectos que consigo melhorar e outros que não consigo alterar. O Sábio retorquiu: - Isso é bom! Mas o Homem prosseguiu: - Sim. Mas começo a ficar cansado de lutar contra tudo, contra todos, contra mim próprio. Isto nunca terá fim? Nunca terei descanso? Quero poder parar de lutar, desistir, abandonar tudo...
    O Sábio prosseguiu: - Essa é a tua próxima lição. Mas antes de prosseguires, volta-te para trás e observa bem o Caminho que percorreste. Será que não deixaste o grande amor de caminhada para trás ?

    IV
    Olhando para trás, o Homem viu à distância o terceiro Portal e reparou que, no lado de trás, estava escrito: ACEITA-TE A TI PRÓPRIO
    O Homem surpreendeu-se por não ter visto a inscrição quando passara o Portal no sentido contrário e pensou que, quando se luta, fica-se cego para tudo o que esteja para além da luta. Reparou então em tudo o que deixara cair, que deitara fora, enquanto lutara contra si próprio: os seus defeitos, as suas sombras, os seus medos, os seus limites, tudo antigas preocupações suas. Aprendeu então a reconhecê-los, a aceitá-los, a conviver com eles. Aprendeu a amar-se a si próprio sem voltar a comparar-se com os outros, sem se julgar, sem se repreender sem ter auto piedade, sem se achar menos valoroso.
    O Sábio perguntou-lhe então: - Que aprendeste no teu Caminho?
    O Homem respondeu: - Aprendi que odiar ou repudiar uma parte de mim próprio é condenar-me a nunca estar de acordo comigo mesmo. Aprendi a aceitar-me a mim próprio, total e incondicionalmente.
    O Sábio retorquiu: -Isso é bom! Essa é a primeira regra da Sabedoria.. Agora regressa ao segundo Portal. E toma de volta o teu grande amor que, infortunadamente, deixaste para trás, por arrogância, teimosia, medo, culpa e quem sabe, volúpia de outras carnes.

    V
    Ao aproximar-se deste, o Homem leu, nas suas traseiras: ACEITA OS OUTROS
    Reparou então em todas as pessoas com quem tinha estado em toda a sua vida, quer nas que tinha amado ou com quem tinha tido amizade, quer nas que lhe tinham desagradado. Naqueles que tinha apoiado e naqueles contra quem tinha lutado. Mas a sua maior surpresa foi que se apercebeu que agora nem notava as suas imperfeições nem os seus defeitos, que antes tanto o incomodavam. Percebeu que estava apto a retomar sua caminhada , de mãos dadas, com sua melhor parte, o amor....
    O Sábio perguntou-lhe então: - Que aprendeste no teu Caminho?
    O Homem respondeu: - Aprendi que, estando em paz comigo mesmo, já nada me incomoda nos outros, nada neles temo. Aprendi a amar e a aceitar os outros, total e incondicionalmente.
    O Sábio retorquiu: - Isso é bom! Essa é a segunda regra da Sabedoria. Regressa agora ao primeiro Portal.

    VI
    Aproximando-se deste, o Homem leu a inscrição: ACEITA O MUNDO
    O Homem pensou que também não vira estas palavras quando ali passara no sentido contrário. Olhou à sua volta e reconheceu o Mundo que tentara conquistar, transformar, mudar. Ficou estupefacto pelo Brilho e pela Beleza de tudo, pela sua Perfeição. No entanto, era o mesmo Mundo de antes. Que mudara? O Mundo ou a sua percepção dele? Será que era este mundo que o Amor queria me mostrar e, intransigentemente, fiz questão de negar? O Sábio perguntou-lhe então: - Que aprendeste no teu Caminho?
    O Homem respondeu: - Aprendi que o Mundo é o espelho da minha alma. Que a minha alma realmente não pode ver o Mundo, que se vê a si própria nele. Quando a minha alma está alegre, o Mundo parece-lhe alegre. Quando está triste, assim lhe parece o Mundo. O Mundo em si não é alegre nem triste: Está lá. Existe, é tudo. Não era o Mundo que me perturbava, mas a ideia que eu tinha dele. Aprendi a aceitar o Mundo sem o julgar, a aceitá-lo total e incondicionalmente. Ninguém é melhor do que eu,..ninguém esta no mundo para me ferir ou magoar, somente eu sou capaz de me causar infortúnios ao desacreditar no amor.
    O Sábio retorquiu: - Essa é a terceira regra da Sabedoria! Estás agora em consonância contigo próprio, com os outros e com o Mundo. Um profundo sentimento de Paz, de Serenidade, de Plenitude, encheu o Homem. Dentro dele, o Silêncio substituiu todo o fragor das lutas que travara.
    E então o Sábio concluiu: - Agora, estás pronto para, quando chegar o momento, passares em paz o último e desconhecido Portal, aquele que vai do Silêncio da Plenitude para a Plenitude do Silêncio.

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